TARÔ – A Viagem do Louco – O Processo de Individuação do Homem

Até os dias de hoje, não se sabe ao certo a origem do tarô. Suas primeiras aparições conservadas datam do fim do século XIV à metade do século XV, mas os estudiosos acreditam serem de origem muito mais antiga. O fato inegável é que à pelo menos Cinco séculos estas cartas tem exercido fascínio  e interesse nas pessoas.

A partir do trabalho de Jung   com a proposta de inconsciente coletivo e seus arquétipos, elevou-se o interesse da psicologia  nos caminhos não racionais que são traçados pelo homen para lidar com o mistério da vida e do universo. A psicologia analítica volta-se entre outras coisas ao estudo do Tarô e principalmente dos seus 22 arcanos maiores como arquétipos, ou seja, símbolos autênticos, capazes de fecundar nosso consciente, gerar idéias novas  e estimular a criatividade. A viagem descrita pelos Arcanos maiores do Tarô é arquetípica, demonstra estágios de desenvolvimento psicológico e estimula os homens na arte de aprender. O caminho traçado pelo Tarô desde a saída do louco até o reencontro consigo mesmo na carta do mundo, é o caminho que Jung compreende como o caminho do homen no processo de individuação, de descobrir sua originalidade única e atingir a totalidade ou a auto-realização. Esta viagem dos Arcanos acontece em vários níveis diferentes, proporcionam mudanças internas e mobilizam acontecimentos  externos que por sua vez mobilizam novamente o interior, como um grande círculo dançante. É o que o Joseph Campbell chama de a viagem do herói, descrita em vários mitos ao redor do mundo.

     Tudo começa com o Louco ou o bobo, o arcano zero, o ser que inicia a viagem. O homen inicia a viagem como bobo porque é necessária a postura simples e inocente para abraçar o novo e desapegar-se do velho, apenas com o instinto como o guia. Ao tentar o novo sem julgamento, com alegria e disposição de brincar, o louco acessa o Mago , a carta Um, que é o princípio criador masculino, que o torna capaz de guiar-se sozinho, de obter conhecimento por si mesmo, de ser mestre. Com este princípio ativo e criador, o louco ganha consciência e começa a buscar clareza e tomar iniciativa. Prosseguindo em sua viagem encontra a Papisa ou A Grande Sarcedotiza e sua compreensão ganha a luz da certeza intuitiva, do sonho, da previsão, da compreensão profunda não só da luz, mas também da sombra, dos interelacionamentos e interditos. Pronto, o herói antes bobo, louco e ingênuo abriu dentro de si a mãe e o pai celestiais e vai se deparar agora com a mãe e os pais terrenos. São as cartas Três e Quatro do Tarô: A Imperatriz  e O Imperador . Aqui o herói compreende a natureza e seus ciclos, o ser fértil, o trazer o novo ao mundo, a renovar, a crescer. No colo da imperatriz o louco aprende a confiança na plenitude e na abundância. Já nos braços do Imperador ele aprende a realizar, a concretizar as idéias geradas pelo solo da imperatriz, a perseverar, a criar ordem, estrutura e resistência para controlar e se responsabilizar pelo equilíbrio, pela constância da energia vital e de crescimento desenvolvido pela mãe. De posse dessas forças (nutriz e realizadora) o herói se encontra com o Papa , ou Hierofante , onde obtém a educação para diferenciar o mal do bem. O Papa é o Pontífice, a ponte entre Deus e o homem, e através dele o louco começa a buscar o sentido, a direção, a respeitar o oculto e a confiar em Deus. Agora ele está pronto para  exercer sua vontade, e pode se deparar com a carta Seis, Os Enamorados ou Os Amantes . Aqui o herói se coloca diante da encruzilhada, é o momento da vida em que é necessário tomar uma decisão, fazer uma escolha sincera e dedicar-se à sua opção. Ao escolher a direção à carta do Carro , a carta Sete, se move em direção ao herói, e com o Carro o louco se põe na estrada levando consigo a responsabilidade da escolha feita anteriormente e aprende a dominar as contradições do caminho, a experimentar o mundo, ousar fazer o novo , despertando para si mesmo e entrando no campo da conscientização.Agora nosso herói está preparado para a carta Oito, A Justiça , o amadurecimento, necessário para compreender as leis, julgar equilibradamente, ser objetivo, honesto, corajoso, e tomar decisões sábias. A força da Justiça leva o herói a reconhecer a necessidade da responsabilidade de ouvir a si mesmo para decidir. Ele se retira e recolhe-se na carta do Eremita ou Ermitão . Aqui na introversão, na concentração interior,  ele acessa o velho sábio, o autoconhecimento, o silêncio interior, a fidelidade a si mesmo e aos própios padrões pessoais. Consciente de sua identidade ele busca o oráculo, a carta Dez , A Roda da Fortuna , a força motriz por trás das mudanças da sorte no universo, e descobre a tarefa da vida, o centro, o significado escondido nas mudanças. Diante do inevitável, ou seja, as mudanças da vida, nosso herói acessa a carta Onze, A Força ; que lhe empresta coragem para lidar com suas sombras e continuar afirmando a vida com prazer mesmo diante das perdas que a roda possa trazer.

O sentimento de poder que a carta Onze pode trazer leva o herói a enfrentar a prova da carta Doze, O Enforcado , onde se vê numa situação em que a única força é a rendição do ego. De cabeça pra baixo sobre o abismo o herói precisa enterrar seu ego na sombra da terra fértil e crescer para dentro. Não há saída e o louco vive nesta carta uma crise existencial, precisando submeter-se ao exercício da humildade e da paciência e preparar-se para a descida ao inferno que a carta Treze , A Morte , traz em seguida. Agora o herói precisa deixar morrer o que não serve mais, deixar cair os limites, experimentar a dor do fim, desapegar-se, para que o novo venha.

Renascido o herói é saudado por um anjo , A Temperança , o anjo-condutor que proporciona o reencontro consigo mesmo, com esse novo ser que flui em harmonia, tranqüilidade e saúde. Mas esse reencontro precisa ser total e esse anjo o leva de encontro ao Diabo , a carta Quinze, o reino do vício, do escuro, do escondido, para assimilar sua sombra, recuperar a força que ela tem, e assim poder assumir sua liberdade com um ser total. Essa libertação tende a ser dramática, e é necessário o desmoronamento da Torre , da proteção, das certezas e crenças cristalizadas, a carta Dezesseis, onde os limites são explodidos e, com eles a prepotência, deixando no lugar somente incertezas. O Louco olha agora para a carta Dezessete, A Estrela , a carta da fé, da esperança que será sua única guia nessa fase do caminho. Aqui ele começa a se relacionar com o todo e a confiar, sentindo-se revigorado. Assim ele pode passar pelo reino da espera pelo que virá a carta Dezoito, A Lua , onde a ansiedade, o medo, a insegurança de não saber  nada, só é curado pelo acesso anterior da esperança, que lhe diz que  a clareza em breve se aproxima. E ela vem com a carta Dezenove, que traz a luz, O Sol . Aqui a despreocupação, a alegria de viver e a leveza abraçam o herói nesse novo nascimento. Ele agora pode encontrar a carta Vinte, O Julgamento , onde com a clareza do Sol no coração, ele pode fazer a somatória da vida, colher seus frutos e ver o início surgir do passado. Finalmente o louco pode agora se perceber inteiro e em paz. Pode abraçar O Mundo , a carta Vinte e Um, assumindo seu lugar na totalidade, e caindo na dança da vida com todos os seus opostos integrados em harmonia e fluidez. Agora, no plano mais alto do caminho, o herói reencontra sua criança dançante, alegre e desapegada, seu Louco, e descobre que novamente pode partir se aventurar, se arriscar de novo, de novo, e de novo… 


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